terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Velharia

Eu sonhei com você em Litha.
Li seu nome no caldeirão de vinho.
Encontrei-o deitado na cama de Maeve
Meus dedos pálidos deslizando pelo seu cabelo negro...
Não era lindo quando nossas peles se contrastavam?
Como se você me trouxesse de longe
E me fizesse pertencer a esta terra

Nós nascemos errantes
Sem pais,éramos nossa família
Nós somos muito velhos para esse lugar
Nos sonhos mostramos nossas reais formas
E usamos sinceras palavras

Meu coração se tornou árido,
Pálido como minha pele
(Hoje sem as cores da sua)
Não acredito mais
Nesses (seus) sonhos

Eu bebi do seu vinho
E fiquei inebriada
Hoje,tão entorpecida,
Não sinto mais
Nada.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O Vôo

Eu fui feita do cinza

Das gotas geladas

Da chuva de primavera

No azul que precede

A tempestade

Fui sobre as casas

E com o vento da noite

Não me importava com o frio

Numa dança suave

Voei sutilmente

Sendo levada pelas asas

Que ninguém pode ver

E não existiam mais pensamentos

Depois não existiam mais palavras

Nem o eu existia.

Apenas a águia, soberana em suas asas.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Humanidade é abandono

Eu deitei em seus braços magros, "pobre nona",fechei meus olhos em silêncio.
E em silêncio,mesmo que sem lágrimas,chorei tudo que havia sentido.
Pensava no menino de olhos vazios,mas brilhantes,com sorriso tolo.
Era um ultraje a Darwin.Nunca seria capaz de sobreviver sozinho e ainda assim existia,assim como outros,sem dar nenhuma satisfação à Genética.
Pensei por um momento em minha criação religiosa;pensei no espírito preso naquele corpo,pensei se ele podia enxergar meu espírito,minha luz_será que ainda havia alguma luz em mim?
Mas os olhos dele eram tão vazios que repreendi meus pensamentos; "não vêem nada"
Então olhei para mãe e vi seu sofrimento calado;amava mas compreendia,uma dor aceita,mas não conformada,uma sina que tentava ser cumprida.
Ainda nos braços de minha avó,em minhas lágrimas sem lágrimas,pensei naquele que um dia foi o único capaz de me compreender,pensei no que diria quando contasse a cena.E então a desesperança tomou conta de mim,como se alguém me enxergasse,tive a sensação de que tinha pena de mim:
"Pobre menina,o seu menino não existe mais.Por que não o enterra?Se outros soubessem disso...Seria uma vergonha,uma piada,ou quem sabe um diagnóstico de obcessão".
Abri meus olhos e só havia o silêncio.
Pensei que se ficasse abraçada,em silêncio,ela talvez pudesse sentir meu desespero contido,e me dar um olhar de consolo,quem sabe uma palavra.Mas ela dormia,e seria muito difícil sair dela qualquer palavra.Bom seria poder ouvir suas histórias e superstições de novo.Ouvir seus conselhor e ter a ajuda da velha magia italiana,para afastar todas as sombras,as sombras que habitam em mim.

Tudo se foi.Restou apenas o silêncio.
Humanidade é abandono.
E a inteligência só traz a solidão.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A águia e o lobo

Juntos nós fomos feitos;
Pelo véu dos tempos
Eu fui para o Norte
E você para o Sul
Do mesmo nós somos feitos
Você é a fúria,
Eu sou a mente.
Eu posso sentir seus olhos de lobo
Me devorando pra onde quer que eu vá
As minhas asas me levariam
Pra onde quer que você fosse.
Você nega,eu nego
Você diz que não poderia me dar seu amor
E eu nunca me renderia a sua dominação
Mas esse amor sempre existiu
Mais forte que a própria razão
Eu espero por você
E toda salvação que você traz
E você espera por mim
Pensando que estarei sempre.
Um coração nunca deveria
Ser dividido.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Colona

Ainda sou aquela menina,andando na chuva
Tendo a certeza que nenhum final de tarde
Seria tão bonito como aquele.
Ainda sou a menina ruiva
Esperando na calçada

Por um beijo seu.
Sopra o vento
E o pedalar lento das bicicletas
Retas e retas
Do planalto paulista.
Giornoohayô,sangue de imigrante
Somos todos frutos da cafeicultura.
Passou-se o tempo,
Passaram as pessoas
E eu caminho pelas ruas
Feitas de saudade
Do nosso interior.
E a saudade é tão grande,que sinto vontade de voltar
Pra velha casa,pra um novo começo,
Mesmo que com um velho
Mesmo sabendo que o antes não existe mais.
Eu ainda sou aquela menina
Vinda daquela família
E que ninguém sabe ao certo o que sou.
Porque tento sentir o que penso
E nem sempre quero saber o que realmente sinto
Mas ainda sou aquela menina
Velha menina do interior.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Docinhos de obcessão

Como pode o fogo nascer do inverno?

Pessoas tão diferentes

Chuva abraçando a terra

Feitos um para outro

Impeça a noite de partir

Impeça o ciúmes de ruir

E toda a tempestade

De devorar.

Não vá embora;

Aqui dentro é seguro pra você.

Flor que cresce no deserto

Há um sentimento

Aqui dentro,talvez não seguro,

Pra mim.

Impeça a noite de partir

E continue aqui dentro

Onde é seguro pra nós.

E não vá,não pare,não acabe

Talvez sejamos ainda crianças

Correndo pela noite.

Como pode a tempestade continuar tranqüila?

Não pare,não vá,não esgote.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Vento

O vento que uiva na minha janela;
Não é teu sussurro.
Nunca vai voltar,eu sei.
O vento é frio
e é fria a solidão.
Os anos passaram
Deixando o amargor
No peito um amor velho,
definhando,ainda não morreu.
Não volta,não volta.
Não tema,é só o vento.
Encare,a solidão.

sábado, 21 de maio de 2011

Velho Sonho

Talvez eu já não saiba o caminho;

Como chegar ao nosso lugar.

Das árvores altas,de um verde escuro

Do céu tão branco pela misteriosa neblina

(E que a tantos assusta,mas nunca a nós).

Da chuva fina,tão fria que poderia tocar os ossos.

Naquele lugar,onde só nos dois fomos

Onde só nos conhecemos

Nos (re)conhecemos.

Hoje tenho uma vaga lembrança

De um lugar que fora tão sagrado

Embora nunca mais o tenha visitado

Posso ainda chamá-lo meu lugar.

Embora nunca mais tenha o visto,

Nunca mais ouvido sua voz

Ou partilhado seus beijos

Ainda te amo - mesmo não querendo.

Como uma plantação perdida

Nessa terra árida

Persiste em minha alma

O seu nome.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Lobotomia

Eu poderia falar da dor que estou sentindo.
Mas eu não sinto nada.
Havia um buraco aqui dentro,
Mas era só o vazio
E eu caí,caí fundo dentro dele
Depois que você se foi,a chuva se tornou violenta.
Eu acordo pela noite e encaro o medo.
Eu dirijo,e dirijo,sem querer chegar.
O céu está cinza,mas não é o nosso
Tudo se foi e é tão difícil acreditar
que não mais te tocarei,que tudo parece apenas um sonho
E só eu sonhei.
E eu te amo tanto,que deveria ser proibido
É injusto e sem misericórdia
Longe da compaixão de qualquer fé
Amar alguém assim.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Suspiro

Dê-me um abraço

Do teu afago eu respiraria

Contigo

Viveria aliviada.

Dê-me drogas

Qualquer coisa

Que me fizesse

Dormir em paz.

Dê-me ilusões

Para que o sorriso

Traga toda a beleza

De volta.

Dê-me prazer

E um pouco da sua dor

Dê-me seus olhos

De esperança no mundo.

Dê-me uma palavra

Que possa fazer calar

Tudo em mim.

Dê-me o silêncio.